30 de setembro de 2009

«O Caso Mental Português»

Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria «provincianismo».

[…]

Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como campónios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.

[…]

A tragédia mental de Portugal é que o nosso escol é estruturalmente provinciano.

[…]

O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias.


Fernando Pessoa
In Fama, n.º 1, Lisboa, 30 de Novembro de 1932

25 de setembro de 2009

Encontro de Poetas no Café Piolho | 26 de Setembro | 17h00m

Tele-estupidez e ruralidade mental

«… é com certo espanto que no espelho da manhã / distraído diviso a cara que me resta»


Um momento, não se trata do poema «Muriel» de Ruy Belo, por nós já aqui guisado, mas sim do espanto com que, hoje de manhã, me deparei ao ler o Jornal de Notícias, designadamente o espaço referente aos Média: «’Telerural’ alvo de queixas».

Fico estupefacta quando as principais queixas recaem no facto da linguagem empregue ser conotada de «boçal» e «ofensiva». Pasmo tanto maior pois foi com o dinheiro dos contribuintes que o comediante ou seja lá o que for, de seu nome Fernando Rocha, fez currículo no canal 2 da RTP ao roçar o limiar da higiene e sanidade do legado de Camões com a linguagem mais grosseira, grotesca, rude, estúpida, idiota e ignorante a que tive a perda de tempo a assistir.

Não deixa de ser curioso também que, para validar, triangular e corroborar opiniões e argumentos, esta sociedade eleja a expertise como mote. Desta feita, cabe ao expert ou especialista em Televisão, de seu nome Rui Cádima, aferir que «o 'Telerural' não é um programa de serviço público, pois roça o mau gosto e é um bocado boçal».

De facto, sempre foi complicado fazer programas de humor em Portugal, ou porque não há talento, ou porque se fragilizam lobbies e instituições seculares ou porque se recorre à brejeirice…

Da minha parte, força rapazes, Quim Roscas e Zé Estacionâncio, e viva Curral de Moinas!

22 de setembro de 2009

Ideia da Vocação | Giorgio Agamben

A que coisa é fiel o poeta? A pergunta envolve certamente qualquer coisa que não pode ser fixada em proposições ou em profissões de fé memorizadas. Mas como se pode conservar uma fidelidade sem nunca a formular, nem sequer a si próprio? Ela teria sempre de sair da mente no próprio instante em que se afirma.

...

A fidelidade àquilo que não pode ser tematizado, mas também não simplesmente silenciado, é uma traição de natureza sagrada na qual a memória, girando subitamente como um redemoinho, descobre a frente de neve do esquecimento. Este gesto, este abraço invertido da memória e do esquecimento, que conserva intacta, no seu centro, a identidade do que é imemorial e inesquecível, é a vocação.

16 de setembro de 2009

Alienai-vos, alienai-vos, alienai-vos
de capital, exploração e bestialidade
para não sentirdes sobre vós
a névoa narcótica do capitalismo!
Com vista mais poderosa podemos dissolver o mundo. Diante dos olhos fracos solidifica-se, diante dos olhos mais fracos mostra o punho e não tem vergonha, espanca aquele que ousa contemplá-lo.

10 de setembro de 2009

Definitivamente, «uma gaiola
partiu à procura de um pássaro»

9 de setembro de 2009

«Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas», Emily Dickinson

Recordamos, hoje, um excerto do legado poético de Emily Dickinson, em formato bilingue: a edição inglesa a cargo de Thomas H. Johnson e a tradução de Cecília Rego Pinheiro ancorada na fidelidade ao sentido da linguagem da autora.


To lose thee - sweeter than to gain
All other hearts I knew.
'Tis true the drought is destitute,
But then, I had the dew!

The Caspian has its realms of sand,
Its other realm of sea.
Without the sterile perquisite,
No Caspian could be.


Perder-vos - é mais doce do que ganhar
Todos os corações que conheci.
É verdade que a secura é carente,
Mas, há sempre o orvalho!

O Cáspio possui um reino de areia,
A outra forma de ser mar.
Sem a estéril prerrogativa,
Nenhum Cáspio poderia durar.

8 de setembro de 2009

«Um dos meios mais eficazes de
sedução do Mal é o convite à luta»

3 de setembro de 2009

Retratos de uma Sibila decadente (VI)

Os corpos, esse fascínio pela corporeidade que, como um Carro de Jagrená, a impelia a pensar sexual e a agir carnalmente. Essas incursões na noite desgastavam-na e geravam cada vez mais dilemas morais. No seio familiar tinha sido tudo tão simples e fácil, que as suas tentativas insistentes de angariar mais corpos e sexos e alimentar-se da paixão fugaz não lhe permitiam... Ah, chega de juízos de valor, se se sentia atraída por alguém à primeira vista por que não demonstrá-lo? Se desejava alguém por que não haveria de concretizar esse desejo? Nada a impedia, a não ser a moralidade vigente na célula familiar e sem dúvida a hipocrisia dominante da sociedade patriarcal. E ela não se privava de nada, a não ser da sua própria existência pois sempre havia vivido em demasia a vida dos outros. Altruísmos? Não, a sensação egoísta de que ao viver a miséria dos demais esquecia momentaneamente a sua própria miséria. A do mundo, bem… não podia padecer de todos os males!

Lembras-te quando me davas a mão?

2 de setembro de 2009

À espera de Caim...