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21 de março de 2021

‘Esperança’, essa coisa de penas feita | Emily Dickinson

‘Esperança’, essa coisa de penas feita –

Que assenta na alma –

E trauteia a melodia sem quaisquer palavras –

E nunca pára, de forma alguma –

 

E a mais doce – no Gale – é escutada–

Abate-se a tempestade indomável

Capaz de aninhar o passarinho

Que muitos acolheu e aconchegou –

 

Tudo isso ouvi na terra mais gélida –

E no Mar mais longínquo –

Contudo – nunca – de algum modo,

Pediu uma parte ínfima – de mim.

19 de dezembro de 2020

Carta ao Tomé

Kafka escreveu a carta ao Pai.

Eu escrevo ao António Tomé.

Quando dizia poesia, fui a uma feira de artesanato e conheci o Tomé!

Queria um colar da minha tatuagem do Om. Fazia esmalte, mas, na altura, estava também a fazer trabalhos em prata. Seguimos.

O Tomé era Alguém que nos fazia sorrir e que tornava tudo leve…

Professor primário, artesão, natural do Pinhão.

Foi uma Luz no meu mundo cinzento. Facilmente recreava dias perfeitos. Parou o meu tempo.


Obrigada Tomé:

- Pelo achigã que comemos e pescámos (odeio pescar);

- Quando me acompanhaste à FLUP para receber o prémio de curso;

- Por caminhares ao meu lado de olhar limpo.

(...)

Depois, a vida segue e afastámo-nos.

Deixei de ir a feiras de artesanato.

E um dia, ousei e perguntei por ti…. Queria muito que tivesses conhecido o F. ‘Tinhas tocado a campainha’ (private joke).

Recebi a notícia da tua viagem. Comprei um anel e agarrei-me a F.

Até já Tomé e faça o favor de olhar por nós =)

20 de novembro de 2020

Amanhã recomeçamos | David Mourão-Ferreira

Não me conformo com a ideia de vivermos aqui, cada noite ancorada num porto diferente... Quero uma casa. Preciso de ver pessoas. Quero voltar a sentir a terra debaixo dos pés. Quero deixar de ouvir o mar.

16 de agosto de 2010

Véu Nascituro

Sob o mote da palavra,
um sopro de vida.

Do véu nascituro,
uma parte do ser.

Qual gata assanhada,
fôlego de flor ou cão cansado,
ronrono para te espreitar – F.!

29 de agosto de 2009

Para a Avó Celeste

Ainda ontem me tentaram confortar com as palavras de um filósofo indiano, de que a felicidade advém do curso natural da vida! De facto, a noção de morte entranha-se no meu percurso, com a perda recente do avô Tone e, agora, da avó Celeste. Os meus avós nunca foram educados para a manifestação ostensiva dos afectos mas, à sua maneira, demonstravam o seu carinho e preocupação. Aliás, tendo sido companheiros durante 62 anos, o meu avô tinha um modo peculiar de silenciar alguns arrufos conjugais: «mulher deixa para lá, eu gosto de ti!».

Recordo a minha avó como uma mulher de forte personalidade, trabalhadora, responsável, de palavra, altiva e amiga. Há episódios que retenho como a sua abertura aos novos tempos e costumes, nomeadamente ao nível das relações interpessoais; assim como a sua percepção do valor do conhecimento e da educação, sendo ela analfabeta, tanto mais que o dicionário de língua portuguesa que me tem acompanhado já havia sido por ela ofertado ao meu pai; também o primeiro computador que tive foi por ela oferecido, entre pasmo e cepticismo perante as potencialidades da máquina; durante a sua vida, foi uma mulher de negócios e mesmo na transição para o euro, com a ajuda do famigerado kit, a minha avó lá se adaptou e ninguém a enganava!

Avó recordo-a com muito carinho e já com imensa saudade, até das suas palmadas (era o método da Celeste aferir a manutenção do meu peso corporal e se eu emagrecia...).

Até já avó.
Beijo imenso

4 de junho de 2009

Para o Avô Tone

O último post que publiquei ganhou vida e, de facto, não tive tempo para escrever a história do meu avô. A casa está mais vazia e as saudades apertam mas as memórias estão em mim!

Para quem não conheceu o avô Tone, ele adorava viver, sorrir, contar anedotas malandrecas e adivinhas, andar de bicicleta, beber o seu copito e, nos momentos de inspiração, cantar o fado! Não me esqueço da vez que fomos a Espanha e nos unimos, ele para beber e escapar à censura da minha avó, eu para fumar e escapar à censura dos meus pais. Depois, é também inesquecível a ida à Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante a viagem falou-me das suas façanhas sexuais e, quando o deixei para tratar de burocracias, lá foi contar anedotas para o bar dos alunos.

Uma amiga deu-me um texto no dia da separação física, do qual transcrevo o seguinte excerto:

A vida significa tudo o que sempre significou.
É a mesma que sempre foi.
Existe uma inquebrantável continuidade.

Devo eu, só por não ser visto, estar ausente do pensamento?

Estou à tua espera. Num intervalo.
Aqui bem perto.
Mesmo ao virar da esquina.

Por isso, avô, só podia rematar esta mensagem com uma adivinha e desculpa se estou a contar mal: estão duas mulheres na rua à chuva. Que horas são? Falta um quarto para as duas!

Até já avô.
Beijo imenso

19 de março de 2009

Para o meu Pai



«Se aqueles que amamos nos são roubados
temos que os amar sempre para que eles vivam mais.
Edifícios ardem. Pessoas morrem.

Mas o Amor sincero vive para sempre.»

13 de janeiro de 2009

Pai, não sei como dizer-te...

Sem a intenção kafkiana de redigir uma carta, sequer freudiana, invoco o «Ciclo» de Herberto Helder.

Pai:

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um campo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e o abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,


que te procuram.

‘Esperança’, essa coisa de penas feita | Emily Dickinson

‘Esperança’, essa coisa de penas feita – Que assenta na alma – E trauteia a melodia sem quaisquer palavras – E nunca pára, de forma al...