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30 de dezembro de 2009

O amor em tempos descartáveis e plastificados (II)

Eis quando Penélope e Ulisses esvoaçam por entre os céus do Olimpo que a dualidade encapotada se transforma numa trilogia. Isto porque a mise-en-scène requer uma terceira divindade. Desta feita, uma Medusa cuja cabeça oxigenada enquista de um autismo psicologizante. Esta Medusa da áurea moderna ou pós-moderna (por favor, caros ciberleitores não entremos em querelas terminológicas), aspirava a ser Diana, a deusa da caça. Isto porque o seu cosmos lexical entranha os termos alusivos à cadeia predador/presa e um eterno «espetar as garras em...». Claro está que, imbuída de bagatelas psicológicas, se situa numa redoma de cristal, de castelos suspensos erguidos no ar de uma vivência cor-de-rosa.

Uma Medusa oxigenada, um abutre encapotado e que, sem quaisquer dúvidas, almeja sabotar o enlace de Penélope e Ulisses.

Ulisses é forte, no âmbito das suas parcas possibilidades, um deus invertido pois o seu «calcanhar de Aquiles» é de uma fraqueza acutilante, o que transparece no percurso que segue, nas escolhas que faz, nos projectos que abraça, na descartabilidade das deusas do Olimpo, sempre à socapa de novas musas, ninfas e ninfetas que sucumbam perante o seu charme e sedução aparentes e superficiais. E nunca, nunca conseguiu contornar o seu próprio Adamastor!

Mas calma caros ciberleitores! Ulisses é esperto demais! Vitimiza-se e o papel de vítima assenta-lhe bem, relevando a sua eterna infelicidade, carpindo as suas mágoas e angústias, mas sapiente nas charadas e nos jogos psicológicos que entretece. Daí, o encanto ou encantamento por Medusa e o fascínio pela psique.

Ulisses até é um gajo divinal e caricato. Promulgando a era do emocional, peca pelo fundamentalismo da Razão imbuído pelo Século das Luzes, um «iluminado» pela castração e pela repressão dos seus afectos.

Mas, afinal, o que é que o Amor tem a ver com tudo isto, sob o advento dos relatos descartáveis e efémeros?

Num dos seus vaticínios ou presságios, Ulisses prospectiva o movimento feminista. No seu discurso transparece já os seus receios e temores. Não é que, nos tempos que se avizinham, as mulheres vão tornar-se em caçadoras solitárias, na senda de uma carreira profissional, relegando a condição feminina que, na sua óptica redutora, impregna o património genético do cromossoma XX?

Qual Velho do Restelo, a sua antevisão é a de que a raiz de todos os males que irão assombrar as sociedades vindouras reside nisto mesmo. Um cenário de perplexidade, um compósito de lares desfeitos, de divórcios consumados, de filhos iletrados e consumidores de drogas... E essa condição feminina, imputada à nascença pelo reduto genético, apenas lhe dá asas para que possa navegar mais livremente sem quaisquer freios pois, mantendo as suas deusas, ninfas e ninfetas no reduto caseiro, Ulisses dá asas à sua imaginação, ensaiando e descartando.

3 de dezembro de 2009

A górgona academicus na era 2.0

Às vezes, a malta reúne-se e promove tertúlias, daquelas em que gosto de premiar os abutres que por mim passa(ra)m… tento não os ver e ouvir mas a lucidez incansável e a canseira lúdica não mo possibilitam. Daí que nunca pude ficar indiferente à górgona-mor dos corredores livrescos. Ainda chegámos a partilhar um espaço até ao dia em que eu decidi comprar uma motosserra e colectar o meu meio ar condicionado. O ar era irrespirável pois o raio da górgona contabilizava a quantidade de cigarros que eu sugava; o meu tempo de almoço e recorde de pataniscas ingeridas; o número de chamadas para o meu celular; as minhas idas à casa de banho; o número de e-mails por mim enviado; a marca de perfume por mim usada; as vezes que eu mudava de figurino por semana; o tamanho dos meus anéis e colares, para não entrar em mais pormenores… apenas fico intrigada como ela nunca conseguiu quantificar o seu próprio índice de mesquinhez… deve existir uma fórmula linguisticamente testada para o efeito, daquelas que a própria Bardin corrobora com as variantes da análise de conteúdo. Se há coisas que me deixam fula e me fazem deglutir ainda mais pataniscas é constatar que existem ratas de biblioteca à deriva na carreira, ávidas de ambição mas subjugadas pela falta de auto-estima e pela mão ubíqua do cônjuge.

Os excertos que apresentamos de seguida têm como objectivo principal ilustrar a rotina frívola da Górgona e do seu dilecto esposo Poseídon, afigurando-se como objectivos secundários manter a minha sanidade mental e obstar a que a dita motosserra escalpelize os seus invejáveis cabelos.

Górgona (G): Olha, acabei de chegar ao gabinete e enfim… acho que ela hoje tresanda a Calvin Klein e tinha o ar condicionado ligado… agora deve ter ido à casa de banho, depois tomar um café e fumar dois cigarros. E anda o Estado a subsidiar estes bolseiros… mas olha não era disto que queria falar. Estás aí?

Poseídon (P): Estou a acabar de rever a apresentação e daqui a pouco, vou ler as cábulas para a aula mas diz lá…

G: É rápido, é que cheguei e deu-me a sensação de que o meu computador já estava ligado…

P: Mas tu é que tens a password, não é?


G: Sim mas…

P: Então, não é possível!

G: Pois, deve ter sido reflexo mas quando acedi ao Outlook, não tinha Internet! Achas que ela podia ligar e desligar?

P: Mas o servidor é geral e só tu tens a password, não é?

G: Hum… agora já está a estabelecer a ligação mas está lento… deixa estar, vou tentar resolver isto. Até logo.

[volvidos cinco minutos]

G: Estou? Estás aí?

P: Diz… mas rápido pois vou dar aulas!

G: Acabei de receber um e-mail e estou um bocado atónita, nem sei que dizer… vou ter que responder já a esta aluna mas nem sei bem que dizer… como achas que devo começar o e-mail?

P: A aluna tem nome?

G: Claro, mas será abusivo tratá-la por estimada ou cara… e depois, vou logo directa ao assunto ou… hum, será que loquaz é sinónimo de eloquente? Vê aí! Ela também pede uns dados mas esses relatórios ficaram em casa. Achas que os viste em cima da mesa da sala? Se calhar vou ligar à minha mãe para confirmar. E não estou ainda a ver qual o melhor termo para concluir a missiva, mas vai lá, depois falamos….

P: Até logo! (ggggrrrrrrrrrrrr)

1 de dezembro de 2009

O amor em tempos descartáveis e plastificados

Sempre que abordam a problemática das relações (im)pessoais, lembro-me do meu amigo Ulisses como o protótipo do gajo que descarta. Descarta tudo e todos. Descarta-se a si mesmo sem o saber, reprimindo e castrando os seus próprios sentimentos. E a ânsia de ambição é tão desmedida que, no silêncio e no eco das suas próprias ideias e projectos, descarta tudo o que se lhes sobrepõe. É infeliz e a sua infelicidade e podridão corroem-no e corrompem os demais.

Ulisses (invertido) é um homem (com letra minúscula) vivido, experiente e que prima pelos jogos psicológicos que entretece com as indivíduas, em particular, as indivíduas magoadas, ressabiadas e com antecedentes maníaco-depressivos.

Penélope é bela, aufere de uma beleza e elegância, à mistura com charme, e reveste-se de ideais e de uma forma particular como encara, hoje, o zapping amoroso após uma ruptura afectiva. Contudo, não consegue escapar à teia do descartável, do zarpar efémero.

Ulisses e Penélope compartilham trajectórias de vida similares, com os mesmos percalços e antecedentes, ambos feridos/magoados/ressabiados. Com uma única destrinça: Ulisses enfeuda-se numa redoma de orgulho que o eiva e Penélope, pelo menos o creio, libertou-se desse sentir mesquinho. E contudo, preenchem um vazio incessante mediante a condição efémera da era descartável.

Ulisses, materialmente, frui de tudo mas no plano afectivo não passa de um sem-abrigo, sem poiso certo onde pousar, qual nómada à deriva, sem bússola, preenchendo esse vácuo com projectos e mais projectos, com pensamentos e ideias megalómanas e profundamente líricas, com enlaces descartáveis. O pior disto tudo? Atentando no seu cariz higienista, Ulisses nem preservativo usa na era do VIH/SIDA, ou seja, do «amor» plastificado.

Ulisses é, de facto, o tipo de homem que nos faz sentir realmente bem!! Isto porque ao fazer um convite para um almoço ou um jantar, apenas fala de trabalho e filosofa acerca das eternas querelas do género, mas uma filosofia com um trago de senso comum refinado. Quando termina o repasto – pobre coitado, Morfeu abraça-o, após o seu esgrimir de mamífero primata, e deita-se para no dia seguinte trabalhar, laborar e escolher, de entre o seu cardápio, a gaja a descartar nessa noite.

Será que o coro de uma tragédia grega, ao assistir a esta catarse efémera e descartável, sentiria pena e choraria por ele? Qual o seu veredicto?!? O de Penélope não sei. Talvez fosse laureada e ovada por tamanha paciência, talvez fosse beatificada, por alinhar num jogo de condicionantes, de comportamentos laboralmente aditivos e de enlaces fugazes feito.

3 de setembro de 2009

Retratos de uma Sibila decadente (VI)

Os corpos, esse fascínio pela corporeidade que, como um Carro de Jagrená, a impelia a pensar sexual e a agir carnalmente. Essas incursões na noite desgastavam-na e geravam cada vez mais dilemas morais. No seio familiar tinha sido tudo tão simples e fácil, que as suas tentativas insistentes de angariar mais corpos e sexos e alimentar-se da paixão fugaz não lhe permitiam... Ah, chega de juízos de valor, se se sentia atraída por alguém à primeira vista por que não demonstrá-lo? Se desejava alguém por que não haveria de concretizar esse desejo? Nada a impedia, a não ser a moralidade vigente na célula familiar e sem dúvida a hipocrisia dominante da sociedade patriarcal. E ela não se privava de nada, a não ser da sua própria existência pois sempre havia vivido em demasia a vida dos outros. Altruísmos? Não, a sensação egoísta de que ao viver a miséria dos demais esquecia momentaneamente a sua própria miséria. A do mundo, bem… não podia padecer de todos os males!

Lembras-te quando me davas a mão?

4 de agosto de 2009

Retratos de uma Sibila decadente (V)

Um dia, cheguei a casa depois das compras e encontrei-te a filmar formigas e livros. Só consegui dizer que o teu estado esquizofrénico tinha galopado. Aliás, a filmagem das formigas poderia bem ser uma alusão mais do que metafórica ao facto de que pouco tempo nos restava e que, até certo ponto, é preferível ser microscópico, quase invisível, do que viver uma mentira que todos presenciam mas que recusam ao ponto de ser impossível voltar atrás.

E se eu pudesse como seria, como seria viver e reviver tudo mais uma e outra vez? Estarias tu presente para me acompanhar nesta viagem de angústia e de vómito fecundante?

21 de maio de 2009

Retratos de uma Sibila decadente (IV)

Desperto uma e outra vez e nada sinto. Ao longe vejo um corpo mover-se e arrastar-se e sigo a sombra mas quando devolvo o olhar sou eu e nada mais resta que assistir ao meu retorno. E se hoje eu escrevesse um poema? Leio e busco inspiração e gurus e fico fascinada com as palavras dos outros. Mas a minha voz não é audível, é um eco que perturba e suja o famigerado estado poético. Disseste que, um dia, eu ia perceber que tudo não passava de um gritante exercício de vaidade mas nessa fogueira eu não consigo arder, não há palavras e ânimos que me sustenham e elevem ao estado metafísico dos alquimistas. E nada regressa... penso mar e balbucio cal? Que lógica é esta de quem parte e não regressa, de quem se despede e se apresenta como um autor itinerante? Eu estou presa, arreigada a este corpo e não consigo, estou cansada, a volúpia dos dias rouba-me à vida e não regresso.

6 de maio de 2009

Retratos de uma Sibila decadente (III)

A Sibila tinha como alguns amigos os livros, as estórias e as suas personagens. Num universo masculino e intrinsecamente sexista, cedo descobriu a Simone de Beauvoir e os seus ditames de emancipação. Admirava-a profundamente! Talvez tenha sido sempre esse o seu erro, admirar personagens e elevar-se a um estado de fascínio que a castravam de pensar e de agir. E depois havia sempre o reduto da poesia, o estado da poiesis e a tragédia de vidas que desembarcavam no terminal da morte voluntária. Quando leu O Baú de Isabel Marie levou semanas a digerir o feito de como a escrita poderia potenciar essa libertação de todo e qualquer agoiro terreno. Mas há que agir e trabalhar, o tempo urge, o relógio comanda, a sociedade exige contrapartidas, há que seguir os trilhos da «normalidade» e alcançar o que todos querem.

E a Sibila, mas o que quer ela afinal? Alguém quis saber?

29 de abril de 2009

Retratos de uma Sibila decadente (II)

Sabes, às vezes tenho saudades de mim, quando era mais doce e utópica, quando cheguei a pensar que tudo era possível... mas esqueci-me de mim e, agora, quando vejo um espelho temo-o, receio encará-lo e ver o reflexo do Nada.

E tu ali estavas, aparentemente sereno e sensato à guisa de novos talentos, de novas diversões e desafios que te devolvessem a noção emprestada mas gasta da juventude.

Sabes do que eu gostei mesmo? Daquele desenho em que me sinto Eu, os cabelos negros a repousar no sofá dos teus dedos e no teu olhar terno. Se te amasse diria que sou a tua mulher mas eu busco corpos para me saciar. Para mim, há corpos, não são seres, são corpos que busco para devassar a minha miséria, arrancar algum sopro de prazer e logo abandoná-los pois corrompem e sucumbem ao peso do tempo. Eu anseio pela leveza dos dias e das noites que me perseguem e invadem!

24 de abril de 2009

Retratos de uma Sibila decadente

E eu fui sincera, nunca me tinham dado um ovo de chocolate. Aliás, fiquei tão entusiasmada que, nessa noite, reli o artigo de S. Zizek sobre a identidade tal qual um ovo kinder. O que terias tu querido dizer? Que ando à deriva, sem definição identitária, que ainda não me encontrei? Nessa mesma noite odiei-te e devorei o ovo à procura do meu ser, da minha surpresa escondida e desmontada.

8 de abril de 2009

Corpos (Re)Mediados por Computadores

Ainda hesitaste quando te convidei para tomar um café pois tu preferias jantar arroz de pato. Mas tentei ludibriar-te e disse que levaria comigo a banda sonora da «Laranja Mecânica» e que iria vestida de preto e vermelho. Sorriste, pelo menos utilizaste um smiley com um esgar inquisitivo. Eu mal podia esperar pela grande abertura de William Tell de Rossini mas tu tinhas outros planos e eu tinha que ir para casa tratar dos meus animais. É que, e não leves isto a peito, rodeada de animais já estou eu e já não tenho paciência para doninhas fedorentas intrometidas e ressabiadas, prefiro conviver com a manha dos meus gatos e a obesidade do meu cão. E assim, foste embora e eu suspirei de alívio pelo serão não se ter prolongado para além do limiar da razoabilidade. Nunca mais procurei o que é virtual, nunca mais consegui aceder ao Hi5 com receio de te sentir o rasto. Ainda pensei apresentar-te a uma amiga minha mas ela gosta de animais assertivos, com auto-estima e menos deturpados por danos colaterais pelas vivências da realidade. Mas não fiques triste, mais cedo ou mais tarde encontrarás um novo dono, alguém que te ature, faça festinhas na cabeça e consiga conviver com as tuas paranóias. E a vida segue, real ou virtual, sem querelas terminológicas meu caro pois os academismos sobejam de fugacidade.

3 de abril de 2009

Corpos Mediados por Computadores

«E se o presente de hoje fosse a última noite do mundo?»
John Donne, Devotions upon Emergent Occasions

Lembro-me perfeitamente dessa noite, mais uma noite em que tinha por companhia o portátil, o wireless e as inúmeras ferramentas virtuais que me permitem, por instantes, apagar a minha existência (ir)real. O meu choque não é tecnológico mas sim afectivo!

E eu estava inquieta. Não sei mas havia algo que pairava como presságio. Algo me dizia que te ia encontrar, esgotar-te, sequer reter-te. Sabes, aquele acaso de Kundera, o acaso premeditado dos corpos que iludem outros corpos. E tu lá estavas, com os teus projectos, inquietações e dúvidas. Escutei-te ou melhor absorvi o que escrevias, tentando retorquir com algum brilhantismo mas já divagava e seguia as directrizes maternais «sê mais esperta e deixa o macho brilhar…». Tu achavas que eu estava deleitada a ler os teus pensamentos e teorizações mas eu tentava espreitar o episódio do «CSI» pois os técnicos forenses não estavam a assinalar devidamente as petéquias do principal suspeito. E depois convenhamos, não é fácil respirar num ambiente em que as janelas abertas confluem para o MSN, Gmail, Facebook, Ning, Mixxt, Twitter, Blip.fm, Blogspot, Orkut, Google Groups, YouTube,... Mas eu resistia, qual ciberguru poliglota, espartilhando-me em sugestões, blips, updates, comments, accounts, profiles, search, e sei lá o quê...

E ainda assim tive a ilusão de alcançar-te até sugerir o afamado «quando nos conhecemos pessoalmente?».

18 de março de 2009

Diário de Uma Estrela (de)Cadente (II)

Hoje, ainda tentei ligar... mas tive receio de ser mal interpretada. Já deves saber que amanhã é Dia do Pai mas, como és estéril e a adopção não é ponderável, achei melhor remeter-me ao meu web-diário. De facto, as coisas não correram nada bem quando disseste: "que viste nos meus braços?" e eu retorqui: "pois, são fraquinhos, come papas e vai para o ginásio". Ainda insististe: "a minha pila é pequenina" e eu salvaguardei: "não há nada como um implante peniano". Mas era tarde demais! Tinhas que apanhar a carreira para Vila Verde e eu tinha que preparar o seminário. Desculpa, mas a vida académica não se compadece com as tuas dúvidas existenciais. Os meus alunos também não ajudam em nada pois não adquirem a bibliografia obrigatória, aquela em que eu colaboro e sempre tenho direito a alguns pontos percentuais como revisora e co-autora. Sempre considerei que a melhor lição seria uma espécie de Lição Sobre a Lição. Ainda me indago como é que eles não conseguem memorizar as citações, inclusive vírgulas, parágrafos e páginas. Obviamente, isso é pedagógico pois incita ao sonambulismo intelectual e às massas referenciais. Ortega y Gasset ficaria orgulhoso dos meus objectivos individuais. Tal como daquela vez, em que eu a Mimosa compartilhávamos o gabinete e fomos surpreendidas pelo investigador de Rio Grande do Sul ou do Sur? Tínhamos acabado de acender o cachimbo da paz e... ela ainda conseguiu apagar o cigarro e eu profundamente intrigada, como é que esta mulher engoliu o cigarro? Eu toda atrapalhada, a pensar como imitar o Luís de Matos, esconde o cigarro, troca de mão, abafa o fumo, enfim...

13 de março de 2009

Diário de Uma Estrela (de)Cadente

Tentaste ligar-me mas estava ausente, do telemóvel claro está, e tinha pouca bateria. Depois, insististe e acabei por atender. Disseste que te sentias só e que o teu corpo chamava por mim. Tentei aconselhar-te com leituras pessoanas, massagens de relaxamento e a toma de Xanax mas nunca me levaste a sério. E, no fundo, acho que tens razão! Não te quero mal mas gostava que me apagasses da tua vida, memória e do móvel idem. O meu limiar de tolerância também entrou em deflação e, pelo menos por uns tempos, seria agradável não ouvir a tua gaguez. A vida segue e estou bem, quer dizer, podia estar melhor mas é tudo tão fugaz… hoje, ainda pensei escrever um poema, daqueles instantâneos com citações à mistura, mas não tive tempo. Tive que levar o cão a passear, fazer uns contactos e arejar o guarda-roupa pois a Primavera espreita. E já devias saber que, como sempre, tenho que ter a ultima palavra, tal como a Meg Ryan na película «In the land of women». Viste? Oops, afinal o DVD é teu e foi por mim retido na ânsia de um novo encontro. Mas foste tão inconveniente com os meus amigos do yoga que resolvi não te convidar para mais nada. Ainda gostava de perceber o que tens contra os chakras e manvantaras. Depois, tentaste irritar-me quando alegaste que todas as matosinhenses ostentam bigode e que o Narciso Miranda já figura na rede Facebook e se calhar até cantarola no Twitter. Mas o que tens a ver com isso? Tu também entranhas as Novas Tecnologias. Gostava de continuar a escrever mas tenho que retomar os passeios com o cão pois não basta a comida light. Até já!

10 de março de 2009

Freelancer d'almas (cont.)

«Já não sei a quem escrever… Está tão longe toda
essa gente… Mudaram de alma para melhor traírem,
melhor esquecerem, falarem sempre de outra coisa…»
Céline, Morte a Crédito


Mas ainda assim estava confusa. A intenção tinha sido ir a Lisboa ver a exposição da Frida Khalo. Esta visita revestia-se de alguma perfídia na medida em que o Carlos havia balbuciado que tinha chorado a potes ao ver o filme no rescaldo do divórcio. E Ana ainda se sentia órfã do Carlos. Não aquela orfandade pós-bancos da escola académicos, tanto mais que sempre lhe restava o legado comtiano da física social. O seu desprendimento era afectivo mas, sobretudo, de cariz sexual. O corpo, sempre o corpo, «essa puta», como dizia o José. Ai as andanças catalãs e os seus desfechos trágico-cómicos. Sempre que Ana relia Ruy Belo, em particular, «Muriel», recordava o José e as ruas palmilhadas, não em Madrid mas em Barcelona. Andaram de mãos dadas, a brincar aos casais recentemente enamorados, mas nada estava a favor deles: em breve, ela teria que retomar os estudos e ele fora obrigado a descascar batatas para acompanhar o bacalhau cozido com grão. Depois, tinha sido um imbróglio descobrir onde se situava Cornellà de Llobregat e sempre de mãos dadas a tresandar a suor… Ana estava profundamente irritada com tudo isto, com as baratas que quase engolira à mistura com vinho do Porto e com o convite endereçado para colaborar numa colectânea de contos eróticos, sabendo de antemão que tinha o conto já assegurado na medida em que havia partilhado o curral com o José. Mas quem se julga esta meia-leca de editor? Ainda por cima, o voo de regresso ao porto d’abrigo tardava e as amigas lésbicas dele não cessavam de a oxidar com o olhar. Mal sabia ela que a primeira coisa a fazer, depois da aterragem, seria reclamar pela mala trucidada. Há voos assim! E, desta vez, o Miguel não estaria à sua espera no aeroporto com uma rosa de cor mal amanhada e com o bafo de alcoólatra. Nem tudo é mau. Quer dizer, o José tencionava visitá-la no espaço de duas a três semanas, sendo sua tarefa encontrar um ninho de amor. Preferia que o rendez-vous se desse em Paris, assim sempre tinha o pretexto das exposições e dos museus mas, com a sua sina, ainda dava de caras com o Carlos ávido de deslocalização artística. Mas este nunca mais dera sinais da sua ausência e impotência improjectadas, o Miguel devia estar aturdido em álcool, o Adolfo agora era fotógrafo hermafrodita e sim, o José sempre veio e foram felizes algumas horas. Depois, faz-te à vida e desaparece que a menina tem novos projectos e não pode desperdiçar tempo com trípticos narcisistas e intelectuais falidos do Grande Porto.
Ai Primo Levi, se isto é a escrita!!!

9 de março de 2009

Freelancer d'almas

«A gente habitua-se a tropeçar…»
Céline, Morte a Crédito

O que é que faz?, insistiu ele, estranhando a forma como aquela mulher apareceu naquele fim de tarde na galeria. O que mais o intrigou foi o facto de estar sozinha, vestida daquele modo e não falar com ninguém. Mas como o poderia fazer? Ela não conhecia ninguém, não se encaixava na amálgama de artistas, galeristas, críticos de arte e afins. Não era o seu meio. Também não conhecia ninguém e ali estava inquieta, ansiosa e silenciada. Mas ainda assim concitava olhares, suposições e intrigava-o. Insistiu ele, o que faz? Bom, eu gosto de arte mas… o que faço aqui ou na vida? É que na vida ainda não sei, como cá vim parar é uma longa história e a bem dizer roubo corações como freelancer, por vezes almas até… mas sempre como freelancer, num registo precário. A fobia ao real e ao compromisso impedem-me de esboçar outros planos. Talvez o tenha desarmado com esta resposta mas ele insistia intrigado. E como soube da inauguração? Estava para lhe dizer bebe mais um copo que isso passa mas o vinho era mesmo mau! A bem dizer nem sequer conhecia o artista. Seria ele? Hum, estranho… antes de responder o que quer que fosse emergiu um (des)conhecido e ela pode apagar-se com mais um cigarro e um copo de vinho. Respirar fundo, deambular mas os olhares seguiam-na. Quem será? Que fará aqui? Não conhece ninguém, não tece comentários, obviamente não se insere em nenhuma das tribos estéticas aqui reunidas. Eu não crio, eu reproduzo. Logo, parte do silogismo já se completou. Como reprodutora ali está ela para se apropriar de imagens e palavras, de rostos e corpos pincelados que outrora conheceu mas dos quais não se lembra mais. O que é que a solidão te diz? Eu arranco corações e, por vezes, quando me deixam roubo almas!

Apaga-te com mais um copo. As gnoses e as crises fenomenológicas não te assentam bem. É tudo tão objectivamente falsificável! E sim, deverias ter optado por trazer um acompanhante. Assim, os esgares e os sobrolhos que teimam em seguir-te ter-se-iam desvanecido. Mas tinhas viajado assim tão à pressa, só com essa mala e esse vestido… ainda bem que os sapatos são tão multifacetados logo aos pés da escada. Ainda pensou no Adolfo mas as coisas não tinham corrido nada bem. Logo agora que ele aspirava a artista enlevado por surrealismos e artes digitais… e no meio seria concorrência desleal. Tinha razão, fazer-se acompanhar por um jovem artista desconhecido e com um look semi-apetecível não teria sido uma boa opção. E sempre terias que aturar com as seis horas de pendular barradas por ateísmos e as últimas do Vaticano! Ainda assim, que andará o Adolfo a urdir? Pelo menos, sob o mote de não te coarctar a liberdade pessoal tinha desamparado a loja. De repente o ardor no estômago impediu-a de prosseguir com este flash-back. Não havia comido nada e esse foi um dos motes para ir à inauguração. É que sempre daria para petiscar algo, se bem que não era socialmente agradável observar uma mulher com aquele porte a deleitar-se com as miniaturas de canapés. Os ritos sociais podem ser, de facto, estranguladores e os rituais de comensalidade parecem não se compadecer com a condição feminina. E assim, a Ana relembrou a teoria da estruturação de Giddens e a dualidade entre estrutura e acção. O actor sempre teria alguma margem de manobra, o que equivale a afirmar: Ana come uns salgados apenas para depois te empanturrares de doces. Ainda assim a companhia do Adolfo teria primado pela frugalidade, ele não come, nunca come, a arte é a sua seiva.

‘Esperança’, essa coisa de penas feita | Emily Dickinson

‘Esperança’, essa coisa de penas feita – Que assenta na alma – E trauteia a melodia sem quaisquer palavras – E nunca pára, de forma al...