Ainda que não se preveja uma séria desalfabetização da humanidade, porque o novo aparece junto ao antigo, já se vai esboçando o desaparecimento de uma importante premissa que possibilitou a evolução da cultura semântica da nossa sociedade: referimo-nos à premissa da unidade de enunciado, em relação à qual se pode escolher, expressar consenso ou dissensão. Poder-se-ia designar a dita premissa como limite da comunicação possível e então veríamos como tal limite se tornou capaz de gerar evolução e de que maneira isto ocorreu. Se este limite desaparece, o que limitará então a comunicação social de forma suficientemente determinada para poder ser o ponto de partida de uma posterior evolução?
Amálgama de palavras, sons e imagens em busca de dias sempre leves ou escreve um poema e bebe um copo que isso passa
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6 de maio de 2010
7 de abril de 2010
Ideia do Erro | Fernando Pessoa
Porque vais buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias,
Religiões, seitas [voz de pensadores],
Se o erro é condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro.
Da verdade há apenas uma ideia
À qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar;
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo, mais sentido,
Mais [visto] que o usual do seu pensar.
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-te eternamente
Fraco no engano, [e assim] no desengano;
Quer na ilusão, quer na desilusão.
Sistemas vãos de vãs filosofias,
Religiões, seitas [voz de pensadores],
Se o erro é condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro.
Da verdade há apenas uma ideia
À qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar;
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo, mais sentido,
Mais [visto] que o usual do seu pensar.
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-te eternamente
Fraco no engano, [e assim] no desengano;
Quer na ilusão, quer na desilusão.
23 de março de 2010
Ideia da Forma | Ana Horta
Talho-te agora com o movimento da carne das minhas
mãos vivas
e do plasmar das palmas lisas na matéria do mundo
surge o lugar do espaço que te figura
aí te acolho e sei:
detemos a manhã
e as formas enroladas sobre o solo
Lembro:
nenhum lugar para a vaidade
apenas o puro despojamento do peso
porque o corpo é um barro perfeito
6 de março de 2010
Ideia do Feminismo | Florence Thomas
A propósito do Dia Internacional da Mulher, eis as palavras emprestadas de Florence Thomas que a mim chegaram através da minha amiga Irene:
Nunca he declarado la guerra a los hombres; no declaro la guerra a nadie, cambio la vida: soy feminista. No soy ni amargada ni insatisfecha: me gusta el humor, la risa, pero sé también compartir los duelos de las miles de mujeres víctimas de violencia: soy feminista. Me gusta con locura la libertad más no el libertinaje: soy feminista. No soy pro-abortista, soy pro-opción porque conozco a las mujeres y creo en su enorme responsabilidad: soy feminista. No soy lesbiana, y si lo fuera ¿cuál sería el problema? Soy feminista. Sí, soy feminista porque no quiero morir indignada. Soy feminista y defenderé hasta donde puedo hacerlo a las mujeres, a su derecho a una vida libre de violencias. Soy feminista porque creo que hoy día el feminismo representa uno de los últimos humanismos en esta tierra desolada y porque he apostado a un mundo mixto hecho de hombres y mujeres que no tienen la misma manera de habitar el mundo, de interpretarlo y de actuar sobre él. Soy feminista porque me gusta provocar debates desde donde puedo hacerlo. Soy feminista para mover ideas y poner a circular conceptos; para reconstruir viejos discursos y narrativas, para desmontar mitos y estereotipos, derrumbar roles prescritos e imaginarios prestados.
Soy feminista y escribo para las mujeres que no tienen voces, para todas las mujeres, desde sus incontestables semejanzas y sus evidentes diferencias. Soy feminista porque el feminismo es un movimiento que me permite pensar también en nuestras hermanas afganas, ruandesas, croatas, iraníes, que me permite pensar en las niñas africanas cuyo clítoris ha sido extirpado, en todas las mujeres que son obligadas a cubrirse de velos, en todas las mujeres del mundo maltratadas, víctimas de abusos, violadas y en todas las que han pagado con su vida esta peste mundial llamada misoginia. Sí, soy feminista para que podamos oír otras voces, para aprender a escribir el guión humano desde la complejidad, la diversidad y la pluralidad. Soy feminista para mover la razón e impedir que se fosilice en un discurso estéril al amor.
Soy feminista para reconciliar razón y emoción y participar humildemente en la construcción de sujetos sentipensantes como los llama Eduardo Galeano. Soy feminista y defiendo una epistemología que acepte la complejidad, las ambigüedades, las incertidumbres y la sospecha. Sé hoy que no existe verdad única, Historia con H mayúscula, ni Sujeto universal. Existen verdades, relatos y contingencias; existen, al lado de la historia oficial tradicionalmente escrita por los hombres, historias no oficiales, historias de las vidas privadas, historias de vida que nos enseñan tanto sobre la otra cara del mundo, tal vez su cara más humana. En fin soy feminista tratando de atravesar críticamente una moral patriarcal de las exclusiones, de los exilios, de las orfandades y de las guerras, una moral que nos gobierna desde hace siglos. Trato de ser feminista en el contexto de una modernidad que cumple por fin sus promesas para todos y todas. Como dice Gilles Deleuze 'siempre se escribe para dar vida, para liberarla cuando se encuentra prisionera, para trazar líneas de huida'. Sí, trato de trazar para las mujeres de este país líneas de huida que pasen por la utopía. Porque creo que un día existirá en el mundo entero un lugar para las mujeres, para sus palabras, sus voces, sus reivindicaciones, sus desequilibrios, sus desórdenes, sus afirmaciones en cuanto seres equivalentes políticamente a los hombres y diferentes existencialmente.
Por esto soy una extraviada, soy feminista. Y lo soy con el derecho también a equivocarme.
7 de fevereiro de 2010
Ideia do Amor | Edward Bond
As pessoas casam por amor
Depois passam uma vida de escravidão para pagar a cama
Acabam zangados e estúpidos com ódio do mundo
Eles têm filhos para amar
Depois amaldiçoam-nos e alguns deles partem os braços
O jogador dá as suas últimas libras a uma rapariga num beco e
depois pontapeia-a insensivelmente para as recuperar
O amor levou-os para o beco
Não digam que o amor é mais puro do que aquilo
Os Generais têm mísseis porque nos amam
Quando fritarmos eles vão chorar por nós nos seus bunkers
Vocês aguentam em qualquer cabana desde que lá dentro haja amor
Desde que consigam dizer 'amor torna-nos humanos' não
precisam de se preocupar em agir como humanos e limpar a
confusão
Vocês patinham na vossa pilha de estrume e apelidam-se de santos
Se um Deus fez o mundo pôs amor nesse mundo para que não
conseguíssemos torná-lo melhor e mostrar que não precisamos de
Deuses
Bom se Deus fez o mundo espero que tenha lavado as mãos logo a
seguir
Depois passam uma vida de escravidão para pagar a cama
Acabam zangados e estúpidos com ódio do mundo
Eles têm filhos para amar
Depois amaldiçoam-nos e alguns deles partem os braços
O jogador dá as suas últimas libras a uma rapariga num beco e
depois pontapeia-a insensivelmente para as recuperar
O amor levou-os para o beco
Não digam que o amor é mais puro do que aquilo
Os Generais têm mísseis porque nos amam
Quando fritarmos eles vão chorar por nós nos seus bunkers
Vocês aguentam em qualquer cabana desde que lá dentro haja amor
Desde que consigam dizer 'amor torna-nos humanos' não
precisam de se preocupar em agir como humanos e limpar a
confusão
Vocês patinham na vossa pilha de estrume e apelidam-se de santos
Se um Deus fez o mundo pôs amor nesse mundo para que não
conseguíssemos torná-lo melhor e mostrar que não precisamos de
Deuses
Bom se Deus fez o mundo espero que tenha lavado as mãos logo a
seguir
28 de janeiro de 2010
Ideia da Parede | Fiódor Dostoiévski
... os homens que saem do vulgar e os homens de acção detêm-se sempre, com toda a sinceridade, diante de uma parede. Para eles, a parede não é uma desculpa, como é para nós, os que raciocinamos e, por conseguinte, nada fazemos; não lhes serve de pretexto para desfazer o que está feito: pretexto com o qual nos damos por satisfeitos. Não, eles param com toda a sinceridade. A parede tem para eles qualquer coisa de calmante, de decisivo, de derradeiro, talvez algo de místico...
21 de janeiro de 2010
Ideia do poema-corpo | Maria Estela Guedes
Há viagens particularmente leves. É assim que recordo o Filo-café realizado em Lamego (2009) e que permitiu o encontro com Maria Estela Guedes. Importando o «CUDOS» mertoniano para o nicho da poesia, o seu livro Herberto Helder, poeta obscuro (Moraes Editores, 1979) tem-me acompanhado na decifração (possível) dos códigos poéticos que presidem à genialidade da obra herbertiana. Sob o advento do «poema-corpo», eis os considerandos de Maria Estela Guedes:
O poema cresce lenta e radialmente no interior da carne, homologando-se à teia sanguínea. Corpo a desenvolver-se na placenta vital, ele próprio matéria vital ainda em fase de organização, será mais tarde expulso à semelhança de nascituro, a estrela vulvar.
Escrever será uma aventura ontológica, implicando ligar-se vitalmente ao outro, aos outros, maneira de tocar o mundo segundo simples e imediata relação corporal: o poeta vai ao encontro do que existe de mais espontâneo e primitivo na vida, atravessando a membrana das convenções morais e sociais, única forma de atingir o primário e fundamental em coisa e pessoas.
Pureza e espontaneidade, energia primordial perdurando e ocultando-se sob a opressão das leis sociais, eis a natureza básica da poesia. Por isso, só o homem bárbaro, o primitivo e a criança estão suficientemente isentos do constrangimento normativo para poderem mover-se no país da linguagem poética enquanto acção fundadora: o país da magia e dos segredos.
A capacidade de visão do sujeito poético vai ao ponto de atravessar as membranas epidérmicas, pondo a nu a rede sanguínea e estrutura óssea dos rostos. Detém-se no sangue, por ser o elemento produtor de calor e luz: a teia sanguínea representa a mais profunda dimensão do corpo, a sua energia vital mais subterrânea.
Pureza e espontaneidade, energia primordial perdurando e ocultando-se sob a opressão das leis sociais, eis a natureza básica da poesia. Por isso, só o homem bárbaro, o primitivo e a criança estão suficientemente isentos do constrangimento normativo para poderem mover-se no país da linguagem poética enquanto acção fundadora: o país da magia e dos segredos.
A capacidade de visão do sujeito poético vai ao ponto de atravessar as membranas epidérmicas, pondo a nu a rede sanguínea e estrutura óssea dos rostos. Detém-se no sangue, por ser o elemento produtor de calor e luz: a teia sanguínea representa a mais profunda dimensão do corpo, a sua energia vital mais subterrânea.
As membranas corporais não apenas deixam coar a luz, como deixam coar o som e, no caso do suor, a água. Ou seja, o corpo apresenta-se poroso, lugar sem fronteiras, espaço de múltiplas travessias: o mundo é o alimento que o corpo devora. Após a digestão, a gestação, ou a maturação, algo de novo sairá do corpo.
15 de janeiro de 2010
Ideia da Musa | Giorgio Agamben
Que uma latência se mantenha para que possa haver não-latência, que um esquecimento seja preservado para que possa haver memória: é isto a inspiração, o transporte suscitado pela musa, que põe o homem em harmonia com a palavra e o pensamento. O pensamento só está próximo da coisa se se perder na sua latência, se deixar de ver a coisa. Esta é a sua natureza de coisa "ditada": a dialéctica latência/não-latência, esquecimento/memória é a condição que permite que a palavra possa acontecer, e não apenas ser manipulada por um sujeito.
Mas esta latência é também o núcleo tartárico em volta do qual se adensa a obscuridade do carácter e do destino, o não-dito que, agigantando-se no pensamento, o precipita na loucura. Aquilo que o mestre não vê é a sua própria verdade: o seu limite é o seu princípio. Não vista, não exposta, a verdade entra no seu ocaso, fecha-se no seu próprio amanthis.
A insuficiente exposição do princípio constitui este em limite do que é dado pela musa, em inspiração. Mas, para poder escrever, para poder tornar-se também inspiração para nós, o mestre teve de abandonar a sua inspiração, teve de a esgotar: o poeta inspirado é um poeta sem obra. Este rasurar da inspiração, que arranca o pensamento ao reino das sombras do seu ocaso, é a exposição da Musa: a ideia.
Mas esta latência é também o núcleo tartárico em volta do qual se adensa a obscuridade do carácter e do destino, o não-dito que, agigantando-se no pensamento, o precipita na loucura. Aquilo que o mestre não vê é a sua própria verdade: o seu limite é o seu princípio. Não vista, não exposta, a verdade entra no seu ocaso, fecha-se no seu próprio amanthis.
A insuficiente exposição do princípio constitui este em limite do que é dado pela musa, em inspiração. Mas, para poder escrever, para poder tornar-se também inspiração para nós, o mestre teve de abandonar a sua inspiração, teve de a esgotar: o poeta inspirado é um poeta sem obra. Este rasurar da inspiração, que arranca o pensamento ao reino das sombras do seu ocaso, é a exposição da Musa: a ideia.
22 de dezembro de 2009
Algoritmo do corpo | René Crevel
Ainda antes da (de)formação corpórea pelo habitus da comensalidade natalícia:
EU + X / Y = uma bruta bacanal
Para dizer a verdade, o mistério mantém-se. A pele não me revelou nada. Acabei por saber que os contornos carnais não marcam nenhumas fronteiras e os corpos bem podem estar receptivos: o apaziguamento não será coisa do espírito.
Equação de pele em cima dos divãs, juntam-se letras e algarismos humanos, mudam de lugar, procuram noções de igualdade sem parecer, aliás, que se divertem muito.
Não era, no entanto, o meu corpo mas o meu espírito que pedia um espelho.
15 de dezembro de 2009
Ideia da Ironia | Albert Camus
Como estou saturada do frenesi pretensamente altruísta cultivado pela e na quadra natalícia, nada melhor do que retomar a ironia de Camus…
Há dois anos, conheci uma velha. Sofria ela de uma doença de que tinha pensado que morria. Todo o seu lado direito tinha ficado paralisado. Não tinha senão uma metade neste mundo e a outra já lhe era estranha. Velhinha mexida e tagarela, tinha sido reduzida ao silêncio e à imobilidade. Sozinha durante longos dias, iletrada, pouco sensível, a sua vida voltava-se inteiramente para Deus.
Naquele dia, alguém se interessava por ela. Era um rapaz. Tinha tomado verdadeiro interesse pelo tédio da velha. Isso, tinha-o ela sentido bem. E aquele interesse era uma sorte inesperada para a doente. Ela contava-lhe as suas dores com animação: estava no fim dos seus dias e é bem preciso deixar o lugar aos novos. Se se aborrecia? Isso era evidente. Não falavam com ela. Estava no seu canto, como um cão. Mais valia acabar. Porque ela gostaria mais de morrer do que estar a cargo de alguém.
Tinham ido para a mesa. O rapaz tinha sido convidado para jantar. A velha não comia porque os alimentos são pesados à noite. Tinha ficado no seu canto, por detrás daquele que a tinha escutado. Para prolongar a reunião, decidiram ir ao cinema. Ia justamente uma fita alegre.
O rapaz tinha aceitado irreflectidamente, sem pensar no ser que continuava a existir atrás de si. Ele sentia-se colocado diante do mais atroz infortúnio que tinha ainda conhecido: o de uma velha doente que se abandona para ir ao cinema. Queria ir-se embora e furtar-se-lhe, não queria saber, tentava retirar a mão. Durante um segundo teve um ódio feroz àquela velha e pensou em esbofeteá-la à toa.
Mas que importa se aceitarmos tudo? A morte para todos, mas para cada um a sua morte. Afinal de contas, o sol aquece-nos os ossos apesar de tudo.
9 de dezembro de 2009
25 de novembro de 2009
Ideia do Avesso e do Direito | Albert Camus
Era uma mulher original e solitária. Mantinha uma estreita intimidade com os espíritos, tomava partido nas suas contendas e recusava-se a ver certas pessoas da sua família mal consideradas no mundo em que se refugiava.
Calhou-lhe uma pequena herança que vinha da sua irmã. Aqueles cinco mil francos, chegados no fim de uma vida, revelaram-se bastante incómodos… Perto da morte, quis abrigar os seus ossos… Comprou o jazigo. Estava ali um valor seguro, ao abrigo das flutuações da bolsa e dos acontecimentos políticos. Mandou arranjar a fossa interior, pô-la pronta a receber o seu próprio corpo. E, isto acabado, mandou gravar o seu nome em capitais de oiro.
Este negócio alegrou-a tão profundamente que foi tomada de um verdadeiro amor pelo seu túmulo. Vinha ver, ao princípio, os progressos dos trabalhos. E acabou por visitá-lo todos os domingos à tarde. Passou a ser a sua única saída e a sua única distracção.
Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como distingui-los? Os homens e o seu absurdo? Mas aqui está o sorriso do céu. A luz aumenta e breve será o Verão? Mas aqui estão os olhos e as vozes daqueles que é preciso amar. Estou preso ao mundo por todos os meus gestos, aos homens por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este direito e este avesso do mundo, eu não quero escolher, não gosto que se escolha.
12 de novembro de 2009
6 de novembro de 2009
Ideia da Vergonha | Giorgio Agamben
Para o homem moderno, a teodiceia é necessária, e ao mesmo tempo falha da forma mais miserável: o próprio Deus se acusa e se rebola, por assim dizer, na sua própria lama teológica, e é precisamente isso que dá ao nosso mal-estar a sua natureza inconfundível. O abismo sobre o qual vacila a nossa razão não é o da necessidade, mas o da contingência e da banalidade do mal. Não se pode ser, nem culpado nem inocente de qualquer coisa de contingente: pode apenas ter-se vergonha disso, como quando, na rua, escorregamos numa casca de banana. O nosso Deus é um Deus que se envergonha. Mas, tal como toda a relutância trai, naquele que a experimenta, uma secreta solidariedade com o objecto do seu desprezo, assim também a vergonha é o sinal de uma inaudita e tremenda proximidade do homem em relação a si próprio. O sentimento de miséria é o último pudor do homem frente a si próprio, do mesmo modo que a contingência - sob o signo da qual parece agora desenrolar-se docilmente toda a sua existência - é a máscara que encobre o peso crescente que causas unicamente humanas exercem sobre os destinos da humanidade.
4 de novembro de 2009
Ideia da Vertigem | Milan Kundera
É natural que quem quer «elevar-se» sempre mais, um dia, acaba por ter vertigens. O que são vertigens?
Medo de cair?
Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito?
As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor.
15 de outubro de 2009
Ideia do Imemorial | Giorgio Agamben
Quando acordamos sabemos por vezes que vimos em sonhos a verdade, clara e ao alcance da mão, de tal modo que ficamos totalmente dominados por ela. Umas vezes é-nos dado ver uma escrita cujo selo subitamente quebrado nos fornece o segredo da nossa existência. Outras vezes, uma só palavra, acompanhada de um gesto imperioso, ou repetida numa lenga-lenga infantil, ilumina como um relâmpago toda uma paisagem de sombras, devolvendo a todos os pormenores a sua forma reencontrada, definitiva.
No despertar, porém, embora nos recordemos de forma límpida, de todas as imagens do sonho, aquela escrita e aquela palavra perderam a sua força de verdade, e é com tristeza que as voltamos de todos os lados, sem conseguir redescobrir-lhes o encanto. Temos o sonho, mas, inexplicavelmente, falta-nos a sua essência, que ficou sepultada naquela terra à qual, uma vez despertados, deixámos de ter acesso.
A promessa que o sonho formula no próprio momento em que se dissipa é a de uma lucidez tão poderosa que nos entrega à distracção, de uma palavra tão completa que nos reenvia para a infância, de uma razão tão soberana que se compreende a si mesma como incompreensível.
30 de setembro de 2009
«O Caso Mental Português»
Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria «provincianismo».
[…]
Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como campónios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.
[…]
A tragédia mental de Portugal é que o nosso escol é estruturalmente provinciano.
[…]
O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias.
[…]
Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como campónios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.
[…]
A tragédia mental de Portugal é que o nosso escol é estruturalmente provinciano.
[…]
O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias.
Fernando Pessoa
In Fama, n.º 1, Lisboa, 30 de Novembro de 1932
22 de setembro de 2009
Ideia da Vocação | Giorgio Agamben
A que coisa é fiel o poeta? A pergunta envolve certamente qualquer coisa que não pode ser fixada em proposições ou em profissões de fé memorizadas. Mas como se pode conservar uma fidelidade sem nunca a formular, nem sequer a si próprio? Ela teria sempre de sair da mente no próprio instante em que se afirma.
...
A fidelidade àquilo que não pode ser tematizado, mas também não simplesmente silenciado, é uma traição de natureza sagrada na qual a memória, girando subitamente como um redemoinho, descobre a frente de neve do esquecimento. Este gesto, este abraço invertido da memória e do esquecimento, que conserva intacta, no seu centro, a identidade do que é imemorial e inesquecível, é a vocação.
...
A fidelidade àquilo que não pode ser tematizado, mas também não simplesmente silenciado, é uma traição de natureza sagrada na qual a memória, girando subitamente como um redemoinho, descobre a frente de neve do esquecimento. Este gesto, este abraço invertido da memória e do esquecimento, que conserva intacta, no seu centro, a identidade do que é imemorial e inesquecível, é a vocação.
14 de julho de 2009
Ideia do Poder | Giorgio Agamben
Talvez só no prazer as duas categorias inventadas pelo génio de Aristóteles, a potência e o acto, percam a sua opacidade, entretanto transformada em estereótipo, para, por um instante, se tornarem transparentes. O prazer – pode ler-se no tratado que o filósofo dedicou ao seu filho Nicómaco – é aquilo cuja forma é completa em cada instante, perpetuamente em acto. Desta definição resulta que a potência é o contrário do prazer. Ela é aquilo que nunca está em acto, que sempre falha o seu objectivo, em suma, é a dor. E se o prazer, de acordo com esta definição, nunca se desenrola no tempo, já a potência se inscreve essencialmente na duração. Estas considerações permitem lançar luz sobre as relações secretas que ligam o poder à potência. A dor da potência desvanece-se, de facto, no momento em que ela passa a acto. Mas existem por toda a parte – também dentro de nós – forças que obrigam a potência a permanecer em si mesma. É sobre estas forças que repousa o poder: ele é o isolamento da potência em relação ao seu acto, a organização da potência. Apropriando-se da sua dor, o poder fundamenta sobre ela a sua própria autoridade: e deixa literalmente incompleto o prazer dos homens.
Mas aquilo que assim se perde não é tanto o prazer como o próprio sentido da potência e da sua dor. Tornando-se interminável, esta cai sob a alçada do sonho e gera, para si própria e para o prazer, os mais monstruosos equívocos. Pervertendo a justa relação entre os meios e os fins, a busca e a formulação, confunde o cúmulo da dor – a omnipotência – com a maior das perfeições. Mas o prazer só é humano e inocente enquanto fim da potência, enquanto impotência; e a dor só é aceitável enquanto tensão que obscuramente prenuncia a sua crise, o juízo resolutivo. Na obra, como no prazer, o ser humano desfruta enfim da sua própria impotência.
Mas aquilo que assim se perde não é tanto o prazer como o próprio sentido da potência e da sua dor. Tornando-se interminável, esta cai sob a alçada do sonho e gera, para si própria e para o prazer, os mais monstruosos equívocos. Pervertendo a justa relação entre os meios e os fins, a busca e a formulação, confunde o cúmulo da dor – a omnipotência – com a maior das perfeições. Mas o prazer só é humano e inocente enquanto fim da potência, enquanto impotência; e a dor só é aceitável enquanto tensão que obscuramente prenuncia a sua crise, o juízo resolutivo. Na obra, como no prazer, o ser humano desfruta enfim da sua própria impotência.
23 de junho de 2009
Ideia do Silêncio | Giorgio Agamben
Numa recolha de fábulas dos fins da Antiguidade lê-se este apólogo:
"Os Atenienses tinham por hábito chicotear a rigor todo o candidato a filósofo, e, se ele suportasse pacientemente a flagelação, poderia então ser considerado filósofo. Um dia, um dos que se tinham submetido a esta prova exclamou, depois de ter suportado os golpes em silêncio: 'Agora já sou digno de ser considerado filósofo!' Mas responderam-lhe, e com razão: 'Tê-lo-ias sido, se tivesses ficado calado.'"
A fábula ensina-nos que a filosofia tem certamente a ver com a experiência do silêncio, mas que o assumir dessa experiência não constitui de modo nenhum a identidade da filosofia. Esta está exposta no silêncio, absolutamente sem identidade, suporta o sem-nome sem encontrar nisto um nome para si própria. O silêncio não é a palavra secreta - pelo contrário, a sua palavra cala perfeitamente o próprio silêncio.
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‘Esperança’, essa coisa de penas feita | Emily Dickinson
‘Esperança’, essa coisa de penas feita – Que assenta na alma – E trauteia a melodia sem quaisquer palavras – E nunca pára, de forma al...
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A noite cerrou as minhas janelas e O céu tornou-se numa casa de cristal As janelas de cristal incandesceram A lua nelas espelhada ...
