26 de novembro de 2009

Passagem quase corneada na Serra da Freita e sem botéfa...

25 de novembro de 2009

Ideia do Avesso e do Direito | Albert Camus

Era uma mulher original e solitária. Mantinha uma estreita intimidade com os espíritos, tomava partido nas suas contendas e recusava-se a ver certas pessoas da sua família mal consideradas no mundo em que se refugiava.

Calhou-lhe uma pequena herança que vinha da sua irmã. Aqueles cinco mil francos, chegados no fim de uma vida, revelaram-se bastante incómodos… Perto da morte, quis abrigar os seus ossos… Comprou o jazigo. Estava ali um valor seguro, ao abrigo das flutuações da bolsa e dos acontecimentos políticos. Mandou arranjar a fossa interior, pô-la pronta a receber o seu próprio corpo. E, isto acabado, mandou gravar o seu nome em capitais de oiro.

Este negócio alegrou-a tão profundamente que foi tomada de um verdadeiro amor pelo seu túmulo. Vinha ver, ao princípio, os progressos dos trabalhos. E acabou por visitá-lo todos os domingos à tarde. Passou a ser a sua única saída e a sua única distracção.

Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como distingui-los? Os homens e o seu absurdo? Mas aqui está o sorriso do céu. A luz aumenta e breve será o Verão? Mas aqui estão os olhos e as vozes daqueles que é preciso amar. Estou preso ao mundo por todos os meus gestos, aos homens por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este direito e este avesso do mundo, eu não quero escolher, não gosto que se escolha.

24 de novembro de 2009

Vinhas só.
Atrás de ti apenas um rasto de sangue.

Quando te aproximaste logo percebi que a tua náusea me avilta.
És o meu nojo e o ser entediante que me inebria...

Resta o conforto do lar e a promessa de um repasto felino.

19 de novembro de 2009

17 de novembro de 2009

«Pobre poeta, andas à caça das palavras», Isabel Meyrelles

Pobre poeta, andas à caça das palavras
e são elas que te caçam a ti,
bem podes armar-lhes ciladas,
és sempre tu que cais na armadilha,
a tua caçadeira tem mau olhado,
a tua caçadeira atira para os cantos,
a tua caçadeira atira no verso branco,
a tua caçadeira atira nos acrósticos
e mata os caligramas,
guarda a tua armadilha,
a tua caça cospe-te no olho,
vai antes caçar furtivamente
nas propriedades do teu feliz vizinho,
o poeta que sabe caçar
o pássaro azul.

13 de novembro de 2009


O marasmo impregna a cidade de Matosinhos.

No café em que escrevo estas notas, o número de clientes é inferior ao número de empregados que, entretanto, espreitam e comentam sobre o que nada acontece. Nem a vista do mar ou o tributo aos pescadores anestesia este sonambulismo envolvente.

Ao caminharmos pela Rua de Brito Capelo, prontamente sentimos a não-presença. Esta é bem pior que a ausência, pois pressupõe o amorfismo económico e sociocultural da cidade. Nem a passagem do metro colmata as sombras que deambulam perante lojas estranguladas. Em direcção a Matosinhos Sul, ainda nos sentimos tentados a enumerar os restaurantes e o semi-novo Teatro Constantino Nery. Não, nada de novo!

Matosinhos: um não lugar.

Ironicamente, ou não, o «homem do leme» faz-se ouvir...

12 de novembro de 2009

Ideia do Cientista Social

Ao revisitar o livro de Luc Ferry e Jean-Didier Vincent sobre «O que é o Homem?», numa tentativa de concertação dos fundamentos bio-filosóficos, prontamente divago para as previsões de Saramago ou para a «pincelada de zarcão» de mais a menos infinito de Gedeão.

A propósito do homem e das vivências em sociedade, fico com os pêlos, os que remanescem por erradicar, solenemente eriçados quando se menciona essa figura obscura e híbrida, de seu nome «cientista social».

Nos corredores da faculdade reproduzem-se quadros teórico-conceptuais e metodológicos e evoca-se, por vezes, a máxima de Kurt Lewin de que não existe nada mais prático do que uma boa teoria. Somos apresentados aos formalismos e às regras que balizam todas as nossas ideias expressas, por conselho, na terceira pessoa do plural, pois não nos compete formular ou esboçar o que quer que seja no «Eu». Neste quadro são escassíssimos os professores que se perspectivam como meros facilitadores do processo de aprendizagem e que fomentam uma leitura crítica dos factos sociais.

Por isso, quando descortino alguns comentários alusivos aos arautos da cultura ou aos guardiães do conhecimento, trata-se de um vício de formação. As aporias perduram: há quem fique preso a quadros teóricos para escamotear a sua ignorância e há quem os recuse paradoxalmente para invocar a sua ignorância fruto de (des)amarras formais e arreigar-se ao auto-didactismo.

Mantém-se o repto de Einstein de que mais importante do que o conhecimento é a imaginação…

6 de novembro de 2009

Ideia da Vergonha | Giorgio Agamben

Para o homem moderno, a teodiceia é necessária, e ao mesmo tempo falha da forma mais miserável: o próprio Deus se acusa e se rebola, por assim dizer, na sua própria lama teológica, e é precisamente isso que dá ao nosso mal-estar a sua natureza inconfundível. O abismo sobre o qual vacila a nossa razão não é o da necessidade, mas o da contingência e da banalidade do mal. Não se pode ser, nem culpado nem inocente de qualquer coisa de contingente: pode apenas ter-se vergonha disso, como quando, na rua, escorregamos numa casca de banana. O nosso Deus é um Deus que se envergonha. Mas, tal como toda a relutância trai, naquele que a experimenta, uma secreta solidariedade com o objecto do seu desprezo, assim também a vergonha é o sinal de uma inaudita e tremenda proximidade do homem em relação a si próprio. O sentimento de miséria é o último pudor do homem frente a si próprio, do mesmo modo que a contingência - sob o signo da qual parece agora desenrolar-se docilmente toda a sua existência - é a máscara que encobre o peso crescente que causas unicamente humanas exercem sobre os destinos da humanidade.

5 de novembro de 2009

O repasto prossegue
besta de ti próprio
cultiva a tua senilidade.

Mais uma metáfora, por favor!

4 de novembro de 2009

Ideia da Vertigem | Milan Kundera

É natural que quem quer «elevar-se» sempre mais, um dia, acaba por ter vertigens.

O que são vertigens?

Medo de cair?

Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito?


As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor.