
Ligo a televisão e sento-me a comer.
Mastigo.
Mastigo devagar. Sem pressas.Mastigo.
E, enquanto mastigo, vou seguindo
as imagens autênticas dos homens
a duas dimensões.
(Com mais uma tornavam-se palpáveis.
Com mais outra seriam seres humanos).
Aprecio-lhes o rosto, os gestos, os olhares,
e é mesmo como se estivessem vivos,
ali, dentro de casa,
ao alcance das mãos.
São autênticos, mas se me apetecer viro-lhes a cara
e eles não reparam.
Baixo-lhes a voz, elevo-a, ou mudo de canal,
mas se voltar ao mesmo eles lá estão
na mesma compostura,
sem darem p'la mudança.
Falo com as imagens. Em apartes
digo o que penso deles,
e eles, que estão ali, fitando-me, falando-me,
não me vêem, não me ouvem, nem sabem que eu existo.
É assim a vida.
Olhamo-nos sem nos vermos.
Entretanto, mastigo.
Há os altos e os baixos, há os gordos e os magros,
há os que têm barbas e os que não têm barbas,
há os que têm óculos e os que não têm óculos,
mas o que todos têm de comum
é a segurança, a firmeza, a convicção
e o desejo de contribuírem para a minha felicidade.
Eles não me vêem nem me conhecem
mas tudo se passa como se estivessem a pensar em mim,
porque eles querem tornar-nos a todos felizes,
e eu sou um deles,
e com isso me sobressalto enquanto mastigo.
Recordo-me
(disseram-me em criança)
que é um dever cristão amarmo-nos uns aos outros.
Eles a mim e eu a eles.
E eu estou perfeitamente de acordo.
Porque não?
Se não passam por mim por que não hei-de amá-los?